Vozes da Amazônia na COP30

Máscaras de Chico Mendes e do cacique Raoni, uma grande cobra alegórica lembrando o boitatá e carros de som alternando discursos políticos com carimbó e brega marcaram o clima da Marcha Mundial pelo Clima, que tomou as ruas de Belém neste sábado (15). O ato reuniu uma amostra vibrante da pluralidade cultural e social da Amazônia.

A organização estima que cerca de 70 mil pessoas participaram da caminhada, que partiu do Mercado de São Brás rumo à Aldeia Cabana. Foram aproximadamente 4,5 km percorridos sob forte calor, em um dia que chegou a 35°C — cenário simbólico para um protesto que cobra decisões efetivas contra a crise climática às vésperas da COP30.

O evento foi articulado por representantes da Cúpula dos Povos e da COP das Baixadas, reunindo movimentos sociais, coletivos de vários continentes, povos tradicionais e comunidades paraenses. O objetivo central foi chamar atenção para as ameaças aos territórios, à segurança de defensores ambientais e à necessidade de políticas que garantam uma transição climática justa. Participantes reforçaram críticas a soluções consideradas insuficientes, como modelos de financiamento que não chegam às populações que vivem da floresta, e defenderam a interrupção de novas frentes de exploração de petróleo e combustíveis fósseis.

As ministras Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas) acompanharam o ato no carro principal, reforçando o caráter popular da conferência realizada no Brasil. A presença do governo federal foi interpretada como um reconhecimento da importância de integrar periferias, povos originários, ribeirinhos e populações de áreas rurais ao debate climático global.

Entre os grupos que deram colorido ao ato estava o Arraial do Pavulagem, referência na divulgação da cultura paraense e amazônica. Para seus integrantes, as manifestações de rua sempre dialogaram com o ambiente e as transformações climáticas enfrentadas pela região. A participação do grupo buscou reforçar a necessidade de olhar para a Amazônia a partir de quem vive nela.

A presença indígena também teve destaque. A ativista munduruku Marciele Albuquerque, conhecida por sua atuação no Boi Caprichoso, reforçou durante o ato que a defesa das terras tradicionais é parte essencial da política climática, sobretudo porque os povos originários são diretamente afetados pelas consequências do aquecimento global, apesar de não contribuírem para sua origem.

Um dos elementos mais fotografados da marcha foi uma escultura em forma de cobra com cerca de 30 metros de comprimento, carregando a mensagem de que o financiamento ambiental deve chegar diretamente às populações que cuidam da floresta. A obra foi produzida por 16 artistas de Santarém, em parceria com movimentos da Amazônia de Pé e da Aliança dos Povos pelo Clima, dentro da campanha “A gente cobra”, que pressiona por recursos destinados às comunidades amazônicas.

O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) também levou suas pautas ao ato, relacionando a crise climática ao direito à moradia. A organização tem reforçado que eventos climáticos extremos — como os que atingiram recentemente o Rio Grande do Sul — ampliam o número de famílias vulneráveis, tornando insuficiente a discussão restrita ao déficit habitacional. Para o movimento, a periferia precisa ser colocada no centro das soluções ambientais.

Participantes de diversas partes do mundo integraram a marcha. Entre eles, representantes da África, da América Latina e de organizações globais voltadas à proteção das florestas. Os grupos destacaram que a luta contra desmatamento, mineração predatória e degradação ambiental exige união internacional e enfrentamento ao colonialismo e ao modelo econômico que pressiona ecossistemas e comunidades.

O sentimento predominante foi o de que a mobilização coletiva tem força para impulsionar mudanças estruturais e para exigir respostas mais robustas dos governos presentes na COP30. Em Belém, a marcha consolidou-se como um dos momentos mais marcantes de participação social durante os eventos paralelos da conferência, reforçando a centralidade da Amazônia no debate climático mundial.

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