Em meio ao avanço dos tratamentos farmacológicos contra a obesidade — especialmente os medicamentos da classe GLP-1, que atuam na redução da ingestão calórica — um estudo publicado em 2023 volta a ganhar destaque por propor uma abordagem oposta: aumentar o gasto energético do organismo.
Diferentemente de fármacos como Ozempic e Wegovy, o estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Cornell investiga como restaurar a capacidade do corpo de queimar gordura, comprometida com o envelhecimento. A pesquisa foi publicada na revista Nature Communications.
Os cientistas identificaram um mecanismo associado ao envelhecimento em que células ao redor dos vasos sanguíneos passam a produzir em excesso a proteína Pdgfrβ, que atua como um “freio” na formação da chamada gordura bege — um tipo de tecido adiposo capaz de queimar calorias para gerar calor (termogênese).
A descoberta aponta para a possibilidade de reverter esse processo, restaurando a capacidade termogênica do organismo. Na prática, isso abre caminho para o desenvolvimento de novas terapias contra a obesidade, especialmente voltadas para populações mais idosas.
Enquanto os medicamentos GLP-1 atuam reduzindo a entrada de energia (menor ingestão alimentar), a estratégia baseada no bloqueio da Pdgfrβ atua no sentido inverso, aumentando a saída de energia. Segundo os pesquisadores, os dois mecanismos podem ser complementares, criando um potencial efeito sinérgico no controle do peso corporal.
O corpo humano possui diferentes tipos de tecido adiposo: o branco, responsável por armazenar energia; o marrom, que queima energia para produzir calor; e o bege, que combina características dos dois. Este último pode ser ativado, por exemplo, pela exposição ao frio, passando a atuar como um importante regulador metabólico.
Com o envelhecimento, no entanto, essa capacidade diminui significativamente, favorecendo o acúmulo de gordura branca e contribuindo para o declínio metabólico. Como ilustrou o pesquisador Daniel Berry, um indivíduo mais velho precisaria de condições extremas de frio para obter o mesmo efeito termogênico observado em jovens.
Para contornar esse desafio, os cientistas testaram o bloqueio da proteína Pdgfrβ em camundongos idosos, utilizando substâncias como o imatinib. Após o tratamento, os animais recuperaram a capacidade de formar gordura bege e passaram a queimar energia de forma semelhante a indivíduos mais jovens.
O processo envolve uma cascata molecular que inclui o aumento da substância IL-33, responsável por ativar células do sistema imunológico que estimulam a formação desse tipo de gordura “queimadora” de energia.
Em um cenário dominado por medicamentos como semaglutida e tirzepatida, a nova linha de pesquisa reforça a importância de estratégias complementares. Ao focar na ampliação do gasto energético, essa abordagem pode representar uma alternativa promissora para o tratamento da obesidade, sobretudo entre idosos, cujo metabolismo tende a se tornar menos eficiente com o passar dos anos.

